यात्रा, देखना , महसूस

Depois das três semanas mais intensas da minha vida, posso dizer que chegámos.

A dura realidade social foi para nós muito difícil de digerir contudo atenuada por uma panóplia de cheiros, cores e sensações que nos permitiram descontrair e conseguir absorver o que este país de contrastes tem para nos oferecer. Antes de começar a clássica e descritiva redacção de uma viagem pelas Índias, considero importante contextualizar: 20 anos, europeus sulistas, na Ásia pela primeira vez.

O raciocínio que decidi encarnar, nesta odisseia pessoal, basear-se-á na influência que este “mundo novo” teve em nós, na nossa forma de pensar, no conteúdo das nossas conversas, e na forma como o que presenciamos nos está a influenciar. Falo no plural pois estou neste projeto com a Teresa, a minha inspiração e a minha companheira, que muito contribui para a formulação das minhas ideias.

Auto intitulava-me um cidadão do mundo, até à minha chegada aqui. A perspectiva varia consoante a visão que temos da realidade, portanto consigo, sem hesitação aperceber-me do quão incompleta era a minha.

Déli,a cidade mais caótica em que já estive, suja, assimétrica e sobrelotada, contudo com uma energia e um ambiente inexplicável. Onde em harmonia coexistem hindus, budistas, siks e muçulmanos, religiões que dentro de si tem inúmeras derivações. Uma cidade que cresce a um ritmo alucinante, contudo sem as mínimas condições para suportar a população que aqui reside. Onde se misturam costumes tradicionalistas com uma nova visão social que só aqui é possível, devido às oportunidades de trabalho, que demonstra que a mobilidade social está a crescer na Índia e que a origem do nascimento já não é um inflexível condicionalismo social.

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Os sons e os cheiros desta cidade são incríveis, lixo por toda a parte, atenuado por aromas de especiarias, incensos e comida de rua que dão a esta cidade uma personalidade mágica, o trânsito é um caos, onde a regra máxima é ” please horn”. Centenas de tuk tuks, motas com 5 pessoas, bicicletas que transportam gás, vendedores ambulantes e crianças obrigadas a pedir para sustentar a família, um país onde, maioritariamente, não existem preços fixos, para quem domina a arte do regateio é um local ideal para visitar.

Estamos alojados no último andar de um prédio no sul de Déli, na zona de Vasant Kunj mais propriamente em Kishargarth. Uma zona da cidade humilde, onde cresce uma nova classe, que através do sucesso do seu trabalho conseguem que os seus filhos estudem e que quiçá tenham um futuro mais promissor.

Em relação ao panorama social que temos assistido, não imaginaria que a digestão das imagens que temos presenciado fosse tão acentuada. Um país de paradoxos, onde os contrastes sociais estão patentes em todo o lado, um país com 1,3 biliões de habitantes onde grande parte vive em condições que, nós europeus, não conseguimos sequer imaginar.

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A AIESEC de Déli, deixando os atrasos de parte, tem realizado um trabalho, sinceramente, acima das nossas expectativas. Estão 270 Aiesecers aqui e todas as semanas existem eventos pela cidade, que permitem que inúmeras culturas tenham contacto entre si. Vivemos com asiáticos budistas que meditam todas as manhãs, egípcios muçulmanos que até há uns dias estavam no Ramadão, mexicanos católicos que fomentam a boa disposição, brasileiros espíritas, por sinal uma religião que desconhecia até à minha chegada aqui, enfim “um cocktail cultural” que jamais iremos esquecer.

A primeira semana de “trabalho” chegou ao fim, estamos numa ONG em Green Park, a Cankids e estamos encarregues da organização do Summer Camp de crianças em tratamento. Intensa, mas será sem qualquer dúvida das experiências mais enriquecidoras que já fizemos e que (in)conscientemente dará os seus frutos na nossa forma de ser.

A nossa equipa é formada por inúmeras nacionalidades, Paquistão, Taiwan, Malásia, e Índia são as origens dos outros voluntários, juntos formulámos um plano de actividades e todos os dias fazemos com as crianças algo, desde origami a idas a museus, para através da diversão lhes atenuar algum do sofrimento induzido pelos tratamentos.

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As duas semanas de atraso do nosso projeto permitiram-nos conhecer Agra, a cidade do Taj Mahal e Jaipur, a cidade cor de rosa que por sinal, numa perspectiva histórica, foi a cidade que mais gostei de conhecer até hoje.

Terminámos a nossa terceira semana com uma viagem de 17 horas até Manali, nos Himalayas a 540 km de Déli, a Índia é um país de contrastes, um país que reune inúmeros tipos de paisagens geográficas e as nossas viagens por aqui confirmam isso mesmo. Esta foi como um retiro para nós, pois saímos da cidade mais confusa em que já estivemos para o local mais natural e virgem que os nossos olhos já presenciaram, foi sem dúvida uma experiência incrível.

De volta a Déli temos mais 3 semanas pela frente. Vamos fazer uma angariação de fundos para comprarmos materiais para o abrigo em que estamos a trabalhar, que recebe famílias de áreas rurais com dificuldades permitindo que as crianças recebam tratamento.

Em forma de conclusão, termino com a certeza de que este projeto, em parceria com a AIESEC, já nos conseguiu fazer pensar, sentir e ver uma realidade que não conhecíamos, que nos tornou mais humildes e humanos, que será um marco na nossa formação pelo impacto que está a ter na nossa visão sobre muitas coisas que até então não tínhamos refletido.

Diogo Silva Nunes

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